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sábado, 2 de maio de 2009

Sobreviventes


Meu pai sofreu algo em 22 de dezembro de 2005, estava entre amigos e eles não souberam explicar para o médico o que acontecera, levaram-no ao médico, depois trouxeram para casa e me disseram que o deixasse tranquilo porque ele estava muito nervoso. 
Alguém ainda me disse: "Não incomoda ele", como se o problema dele fosse apenas preocupações. Passado alguns meses, descobri que ele, naquele 22.12, tivera problemas de articulação da fala, formigamento na mão direita, mas eram apenas "problemas nervosos", sim, cara pálida! 

Ele teve um novo AVCI às 11h40min do dia 13 de janeiro de 2006, estávamos na rodovia, notei que ele se confundiu em um determinado local, não sabia onde estava; "voei" para a nossa cidade e levei-o ao médico em pleno meio-dia, ele foi hospitalizado às 13h e, às 15h, ele caminhava, falava normalmente - não houve sequelas aparentes, mas a memória perdeu espaço, contudo, ele sempre foi "meio esquecido", então não foi uma alteração relevante.

No dia 03 de abril de 2007, no final da tarde, ele teve um novo episódio isquêmico e foi conduzido, imediatamente, ao médico que o colocou em observação - como o médico é da família e sabe que o pai teria todo o atendimento necessário em casa, dispensou a internação hospitalar.

No dia seguinte, levei meu pai a um geriatra e a um neurologista e ambos "avaliaram" o quadro, julgando-o "satisfatório" - ambos mandaram meu pai para casa, insistiram que ele deveria manter uma rigorosa dieta que dispensasse o açúcar e fosse aproveitar a vida - ele é diabético.

No dia 05 de abril, às 10h40min, fui chamada na escola: meu pai havia tido um AVC, perdera a sensibilidade do braço direito e "não tinha estabilidade" na perna direita (caminhava de lado); levei-o direto ao hospital e chamei o médico de família: diagnóstico AVC isquêmico, naquela noite, ele teve uma nova crise, caiu dentro do hospital e, no dia seguinte, quando retornei, meu pai estava sedado - tinham usado haldol, pela primeira vez - também conhecido como "sossega leão". Ele ficou assim, sedado, durante 3 dias - sexta-feira santa, sábado de aleluia e domingo de páscoa. Na segunda-feira, feita uma nova tomografia, apenas houve a confirmação do AVC e da sua extensão. 
Ingenuamente, pensei que tudo estava em ordem...ledo engano.

Naquela segunda-feira, dia 09 de abril, ele teve a primeira crise de agressividade - fui chamada no hospital por volta das 23h e saí, de lá, às 5h da manhã: ele gritava, ele urrava, ele se debatia e, em três pessoas, tínhamos dificuldade para controlá-lo.

Após uma injeção de diazepan e, em seguida, uma injeção de haldol, ele levou 4 horas até dormir...durante dias, meu corpo tinha manchas roxas das agressões que sofri, chorei durante dias... pensava que aquilo só acontecia com meu pai, que aquilo não era normal num paciente isquêmico! Numa tarde, ao chegar no hospital, presenciei uma mulher, cerca de 40 anos, magra, muito magra, sendo contida por quatro homens...descobri que, dependendo da região do cérebro que é afetada, o paciente isquêmico tem crises de agressividade - não era apenas o meu pai que se agitava, não era apenas o meu pai que era sedado...ficamos 25 dias no hospital!

 Ah, esqueci de contar que sou filha única de um pai que é filho único, portanto, durante todo este período, meu pai precisou de acompanhantes - uma mulher ficava durante o dia, outra mulher ou um rapaz ficava no turno da noite; houve, porém, períodos que ficavam duas acompanhantes no turno da noite...meu pai não tem plano de saúde, meu salário esvaiu-se...

Ah, isto precisa ser contado: as técnicas em enfermagem me diziam, diariamente, que eu precisava procurar outros médicos, outros hospitais, que meu pai precisava de tratamento mais especializado...as pessoas, que deveriam me tranquilizar, quase me enlouqueceram. Aliás, falando em enlouquecer, os meus parentes, pelo lado materno (minha mãe é falecida), desapareceram e aqueles que apareceram foi apenas para incomodar.

No dia 30 de abril, meu pai veio para casa - sedado! Uma nova etapa estava começando - tinha uma mulher para cuidar dele durante o dia, uma mulher para cuidar dele durante a noite, só que elas não têm o hábito de "durar no emprego", trabalham 10 ou 15 dias e saem, sem prévio aviso...

No dia 29 de abril, tentamos fazer meu pai caminhar e ele não conseguia firmar a perna direita, hoje, ele já caminha 30 a 50m por dia, com o auxílio de muletas e, às vezes, sem elas. Durante meses, a água foi administrada com uma seringa, a comida foi colocada na boca, hoje, ele senta-se a mesa e manuseia a colher com a qual leva o alimento à boca; ele ainda tem alguns momentos de confusão mental, mas, de um modo geral, "as coisas entraram nos eixos"... Ainda dependemos de uma cuidadora, mas ela trabalha das 7h30min às 13h 3min.

Duas pessoas foram fundamentais nesta recuperação: Dr. Talito Rohde, clínico geral, 50 anos de experiência, e meu amigo Diogo Zimmerman Gabriel, professor e farmacêutico. Dr. Talito porque acertou o diagnóstico, a medicação e se transformou em meu pai adotivo; Diogo porque teve a paciência para me ensinar o que é AVC, como acontece, quais as consequências, quais as regiões que podem ser afetadas e as respectivas sequelas, o papel de cada medicamento, a composição química de cada um... enfim, aprendi muito com ele.
Elaine dos Santos
Professora
Doutoranda em Estudos Literários
Restinga Sêca/RS

4 comentários:

suely disse...

Elaine,
Acho que nao existe uma situaçao pior do que outra. Como dizem, "Deus dá cobertor conforme o frio". Vc é admirável na sua dedicaçao. Fico feliz em saber que seu pai se recupera bem. E é graças a vc. E tb é certo que isso tudo nao é por acaso. É fruto da educaçao e preparo que ele construiu (falando na linguagem noveleira). bjs
Suely

Anônimo disse...

Filha única que vale por 10! Parabéns, moça.
Ana

Marisa disse...

VC é uma filha muito especial, ele deve saber disso. Parabéns pela sua dedicação...Marisa

Anônimo disse...

Que bom que seu pai tem você. Deus deu o frio e o cobertor. Parabéns e muita força e fé... e melhoras para seu pai. Jean, Recife

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