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sábado, 9 de maio de 2009

Um capítulo a parte: as cuidadoras do pai


           Conforme já manifestei em várias ocasiões na comunidade, sou filha única de um pai que é filho único. Ao sair do hospital, o próprio médico sugeriu que eu pedisse para minha tia mais velha, irmã da mãe, ficar em nossa casa, como uma espécie de governanta, para que eu pudesse voltar ao trabalho e assim fizemos. Claro, além dela, contratei duas pessoas, uma para o dia, especialmente nos horários em que eu não estava e outra para a noite.

 

            A mulher que cuidava o pai durante o dia “apegou-se” a minha tia e as minhas determinações não eram atendidas, o que valia era a palavra da minha tia: 78 anos, o marido faleceu de um ataque cardíaco e ela nunca teve empregadas, a neta de 28 anos mora com ela e faz todo o serviço, ou seja, a minha tia nunca precisou mandar alguém fazer as coisas dentro de casa e achava muito natural ficar conversando com a cuidadora do pai, enquanto o pai ficava só!

 

            Eu, em geral, sequer almoçava em casa, para não dar mais preocupação, fazia-o na casa de duas famílias amigas e chegava em casa por volta da uma hora da tarde. Numa ocasião, ao entrar em casa, percebi uma grande movimentação no quarto do pai: a cuidadora e a minha tia colocavam cobertores, edredons sobre o pai com a justificativa de que ele estava com frio. Comecei a tirar todos os agasalhos, procurei o termômetro e verifiquei a temperatura: 36,2ºC. Observei a pulsação, a pressão arterial e tudo estava em ordem. Pergunta básica: o que o pai comeu no café da manhã? Resposta: Nada, ele tava sem fome! Pergunta básica 2: o que o pai comeu no lanche das dez? Resposta previsível: Nada, ele tava sem fome! Pergunta básica 3: O que o pai comeu no almoço? Resposta previsível: Nada, ele não quis comer! Atitude imediata, fui a cozinha, peguei uma colher de açúcar, fiz o pai ingerir e, em 5min, o pai estava reagindo.

 

             Meu pai estava tendo uma crise de hipoglicemia que mata em pouco tempo, quando disse isso, a cuidadora e a minha tia responderam, em uníssono: Mas a gente não ia deixar ele morrer! Diante da infantilidade da resposta, preferi dizer: Sei disso, imagina! Meu pai estava praticamente em coma, mas elas não o deixariam morrer...e eu faria a dança da chuva, né?!

 

            A mesma cuidadora e a mesma tia: 13h, a filha desnaturada chega em casa e a tia diz: Senta aqui, nós precisamos ter uma conversa! Bom, se considerarmos que nem meu pai, nem a minha mãe nuuuunca, never, tiveram este tipo de atitude, juro por Deus, me senti confusa, desorientada, o que poderia a minha tia dizer para mim uma mulher de 43 anos, independente desde os 18 anos? E veio então a ladainha: O teu pai é ruim, o teu pai é ingrato! Como assim, cara pálida? Tu acredita que ele deu um safanão na Wilma (a cuidadora)? Eu vi e mandei que ela colocasse ele para dormir, onde já se viu dar um soco na coitada da mulher e disse isso pra ele, que ele não podia fazer isso! Então, tá, cara pálida! Repreendeu o pai, vítima do quinto AVCI e repreendeu a filha, talvez porque a filha não deu educação para o pai!!!!! Olhei para cuidadora, ela estava lavando a louça que ela e a tia usaram para o almoço, estava emburrada e sequer me dirigia o olhar. Depois que a tia terminou a reprimenda, perguntei para a cuidadora: Quantos pacientes, vítima de derrame, tu já cuidaste? Resposta: sei lá, uns dez ou doze, cuidei do seu fulano, do seu beltrano... e quantos deles se irritavam, gritavam, se debatiam e tentavam (notem: tentavam) agredir seus cuidadores? Resposta mais do que esperada: A maioria! Então, me explica o motivo de alteração na rotina da casa? Silêncio sepulcral. Este fato aconteceu numa quinta-feira. Detalhe importante: naquele dia, como castigo, elas não deram almoço para o pai, preparei uma salada de frutas e levei para ele.

 

            Na segunda feira seguinte, a cuidadora chegou as sete horas da manhã e eu estranhei... Entrou no quarto do pai, pegou suas coisas e passou pela cozinha, eu estava tomando café para, em seguida, ir à escola, deveria dar 10 horas aula naquele dia: Pode arrumar outra, eu não agüento cuidar de dois velhos, ou eu cuido da tua tia ou eu cuido do teu pai! Eu levantei, peguei a carteira, paguei os dias trabalhados e agradeci.

 

            A nova cuidadora ficou conosco um ano e cinco meses. Era uma excelente cuidadora, certamente, ela tratava o pai muito melhor do que eu saberia fazê-lo, mas ela, literalmente, surtou: entrou em depressão e foi...me deixou só, mais uma vez.

 

            A terceira cuidadora do pai veio trabalhar por tempo determinado: eu acertei que ela faria uma experiência de dois meses. Uma ótima cuidadora, mas o pai detestou-a. e posso confessar, eu também não gostei: certo dia, encontrei-a revirando o lixo e perguntei o que acontecera: tava olhando, ver se tinha alguma coisa que eu pudesse levar para casa! Aliás, esta cuidadora foi a mesma que “logrou” o nosso cão. O pai sempre comprava ossos para o cão (o animal é dele!) e, certo dia, enquanto esta cuidadora estava em nossa casa, fiz o mesmo! Gentem, ela teve um treco: como assim, eu ia dar ossos carnudos para o cachorro? Resultado, o cão ficou a ver navios, ela fez uma pregação tão contundente contra o pecado que é dar carne para os animais que eu disse: a senhora quer os ossos? Pode levá-los! Agora, dou boas risadas do fato, mas, no dia, fiquei sem reação. Pecado, cara pálida?

 

            Como o pai rejeitou a tal cuidadora, fui a procura de outra, excelentes referências, ela era uma excelente empregada doméstica, mas considerava “bobagem” tomar cuidado com a alimentação do pai – ora, não dar arroz e batata na mesma refeição, frescura! (sim, meu pai é diabético, dois amidos combinados produzem glicose!). Ademais, ela nunca admitiu que as dores que o pai reclamava sentir no braço eram resultado do AVC e me dizia que o pai devia estar com algum osso quebrado. Ela ficou conosco durante oito meses e, ao sair, disse para metade da cidade: A Elaine? A Elaine é retardada, passa o dia lendo e escrevendo! Sim, cara pálida, de onde ela pensa que uma professora tira o seu sustento.

 

            Bom, mais uma cuidadora: 15 dias. Na verdade, apenas 10 dias, os outros cinco ela não compareceu: problemas na escola do filho, marido doente e ... numa segunda-feira, cinco da madrugada, meu telefone celular toca – a cobrar! -, como não costumo atender ligações a cobrar, não sabia o numero do telefone dela e não considero exatamente uma boa educação fazer-se uma ligação telefônica a cobrar no meio da madrugada, desliguei. Nova tentativa: pensei, deve ter morrido alguém. Era a empregada, destroçada em soluços: meu avô morreu, eu queria tanto ir ao enterro! O que poderia ser dito: Vá, vá tranquila, eu “me viro”! Não fui à escola na segunda-feira; terça, me arrumei, daria aula durante toda a manhã, mas ela não apareceu. Tentei telefonar e recebi a mensagem: “Este telefone encontra-se desligado ou fora da área de cobertura”... tentei, várias vezes, durante o dia e a mensagem se repetia. Quarta feira pela manhã, ela não apareceu... Não tive duvidas, fui à procura de outra pessoa e contratei uma nova cuidadora. Na noite de quarta feira, em torno de nove ou nove e meia, ela me ligou para avisar que retornaria ao trabalho na quinta. Disse-me que estivera fora da cidade, visitando parentes e que apenas retornara na quarta feira.

 

            Estávamos apenas começando a fase mais “movimentada”. Contratei uma pessoa com grande experiência, altamente recomendada, mas esqueceram de me dizer que ela era extremamente ansiosa. Juro por Deus, nos primeiros dias em que ela esteve conosco, eu não dormia, passava acordada durante toda a noite, em crise de ansiedade...ela me enlouquecia! Mas, as aulas começariam em breve e era preciso ter alguém para cuidar do pai, alguém com experiência e confiável... agüentei o tranco! No segundo dia de aula, ela me avisou que, na semana seguinte, não viria mais! O marido conseguira um emprego fora da cidade e ela iria embora. Paciência.

            Nova cuidadora: Dois dias, no terceiro o filho adoeceu e ela sumiu! Nova cuidadora: oito dias, ela “descobriu” que não sabia cuidar de um paciente, vítima de AVC – como assim, cara pálida? Tu não tens experiência? Sim, tenho, mas nunca cuidei de homem e estou me sentindo constrangida...ok! Nova cuidadora: 15 dias. Quando fui pagar a quinzena, repeti um pedido que fizera desde o início: por favor, me ajude a controlar a necessidade de compra de medicamentos e frutas e verduras (na verdade, eu ficara sem o principal medicamento do pai, no domingo anterior, precisei consegui-lo emprestado no hospital local), então ela me disse: Mas, até isso terei que controlar? Deu um sorriso amarelo, fui ao quarto para guardar o talão de cheques...e pensei, dá um tempo, deixa que ela se acalme. Alguns minutos depois, retornei a cozinha, a limpeza inacabada, a porta dos fundos escancarada e nem rastro da criatura...À noite, telefonei, educadamente, mas a resposta foi: Não vou mais! Paciência.

            Estamos, agora, com uma jovem, casada, 25 anos, sem muita experiência, mas se dá super bem com ele...e eu estou feliz!

            Assim, se você está passando pelo processo inicial da doença, não se preocupe, você aprenderá a lidar com as adversidades. Não pense, contudo, que a “rotatividade” de cuidadores é um problema exclusivamente seu e nem imagine que a culpa é sua, conversei com vários médicos e a resposta foi a mesma: eles não têm compromisso.

            Escrevi este post porque, como filha única, enfrentei toda a sorte de adversidades e, durante algum tempo, quase acreditei que a “rotatividade” das cuidadoras fosse culpa minha. Não era. Então não se martirize, concentre suas forças no cuidado com a pessoa amada, na recuperação dela e cuide-se um pouco, você merece.


Elaine dos Santos

4 comentários:

SUELY disse...

Infelizmente é assim mesmo. Só muda de endereço. Não só não têm compromisso, como essas pessoas guardam um "ranço ancestral" contra quem possa lhes pagar. De nada adianta "se apegar", tratar com dignidade, tentar agradar com presentes. Literalmente, cospem no seu prato. E não são poucos os que tratam mal doentes sem pleno controle da razão.

ELISABETE disse...

COMO DISSE A SUELY,INFELISMENTE......MAIS FALTA MUITO AMOR PELO PRÓXIMO E NESTE CASO AS PESSOAS (CUIDADORES) NEM TODOS É CLARO EXISTEM ECESSÕES,TRABALHAM APENAS PELO DINHEIRO.......MAS TENHA FÉ AMIGA, "TUDO" NA VIDA SE SUPERA...PARABÉNS PELA FORÇA,E TENHA MUITA FÉ....E SE CUIDE......

SANDRA disse...

Olá, eu sou a Sandra, tenho 32, formada em ciencias contabeis, nao sei se alguem ainda lê este capitulo, percebi que a ultima postagem foi em 2009, mas, cuido de meu pai tem 2 anos, vitima de AVC, mas eu nunca tive dinheiro para pagar ninguém pra me ajudar a cuidar de meu pai, passei por dias muito dificeis, inclusive financeiro. Nao pude mais trabalhar. Isso foi o fator maior que me fez entrar em depressão muito profunda. Passei o primeiro ano assim, e sobrevivendo de 1 salario minimo junto com o meu pai, passei muitas necessidades e me tornei dependente da ajuda de parentes pra me sustentar. Faz um ano que sai da depressao, e me tornei Distribuidora Independente de produtos de marketing de Rede. Hoje estou muito feliz, pois ganho uma grana extra, e consigo ficar perto do meu pai o dia inteiro, pois as pessoas vem ate mim, em minha casa. Isso é sensacional. E ele esta forte, sadio e creio muito na recuperação dele. Nada melhor que o tempo. Pronto, relatei pelo menos 1 % do que vivi nestes últimos 2 anos. Obrigada

SANDRA disse...

Olá, eu sou a Sandra, tenho 32, formada em ciencias contabeis, nao sei se alguem ainda lê este capitulo, percebi que a ultima postagem foi em 2009, mas, cuido de meu pai tem 2 anos, vitima de AVC, mas eu nunca tive dinheiro para pagar ninguém pra me ajudar a cuidar de meu pai, passei por dias muito dificeis, inclusive financeiro. Nao pude mais trabalhar. Isso foi o fator maior que me fez entrar em depressão muito profunda. Passei o primeiro ano assim, e sobrevivendo de 1 salario minimo junto com o meu pai, passei muitas necessidades e me tornei dependente da ajuda de parentes pra me sustentar. Faz um ano que sai da depressao, e me tornei Distribuidora Independente de produtos de marketing de Rede. Hoje estou muito feliz, pois ganho uma grana extra, e consigo ficar perto do meu pai o dia inteiro, pois as pessoas vem ate mim, em minha casa. Isso é sensacional. E ele esta forte, sadio e creio muito na recuperação dele. Nada melhor que o tempo. Pronto, relatei pelo menos 1 % do que vivi nestes últimos 2 anos. Obrigad

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