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terça-feira, 5 de maio de 2009

O Fim de Semana Prometia.... e cumpriu


Meu nome é Paulo Augusto Coutinho, 44 anos, de São Paulo. Relato aqui minha experiência com o objetivo de que ela possa ser de alguma forma útil a todos, que como eu, passaram ou passam pela provação do AVC sofrido por si ou algum ente querido.

O final de semana prometia... Alto verão de 2005, a sexta-feira ensolarada era o prenúncio de um sábado e domingo perfeitos de praia, boas caminhadas pela orla, cervejinhas geladas... Enfim, um bom fim de semana.

Mas o final de semana prometia muito mais: na verdade, uma mudança radical na minha vida. Vida minha que mal começara há dois meses. Data do meu 40º aniversário... Pois bem, começou com muita dificuldade...

Na noite daquela sexta-feira, cumpri meu ritual de ir saudar o mar e molhar meus pés na água salgada. Pés na areia, bebi duas latinhas de cerveja e segui para o mercado, comprar algo para fazer um lanche, para mim, meus pais e a esposa (sim, naquela época ainda era casado). Minha filha só viria dois meses depois que saí do hospital. Voltemos ao AVC:

Estava em Santos. Ao voltar do mercado, fiz o lanche para todos. Até então tudo normal. Por volta da meia-noite fui ler um pouco, já acomodado num colchão na sala do apartamento. Foi ali, deitado, que senti os primeiros sinais do que estava por vir: uma dor estranha e insistente, por detrás do olho direito, nem forte nem fraca, apenas uma dor. Não imaginava a gravidade disso. Afinal, por que se assustar logo de cara com uma dorzinha de cabeça??

E com essa “dorzinha” chata adormeci, com o firme propósito de cedo acordar para caminhar da Ponta da Praia até o Boqueirão. Adoro caminhar a beira mar!

Assim foi, de fato acordei umas sete horas. Ergui-me do chão, mas logo tropecei no colchão e caí sobre minha mulher, que acordou assustada, perguntando se eu havia bebido de madrugada.... Nada! Era o AVC que ocorrera durante a madrugada e já me tirava o equilíbrio!

Apesar da estranheza de Beth e dos meus pais, que acordaram nesse ínterim, segui da sala para o banheiro – um corredor de aproximadamente oito metros – e tomei meu banho normalmente (pé e mão esquerda funcionando normal)

Ao voltar do banho para a sala, Beth (esposa) comentava com meus pais que eu estava “estranho”. Minha voz estava “pastosa” e enrolada e meu rosto “entortado” – sobretudo a boca.

Insistiram que eu não estava bem e precisava ir para um hospital. Contra a minha vontade chamaram a emergência. Logo estava numa maca e sendo colocado dentro de uma ambulância. E lá fui eu para um PS público de Santos, direto para a UTI, onde permaneci por cinco dias. Feitos os testes de praxe, a primeira tomografia já dava o veredicto: havia sofrido um Acidente Vascular Cerebral Isquêmico (AVCI).

Sabia o que era isso. Já havia feito várias matérias sobre o tema. Tinha a exata noção da gravidade da coisa. E já me dava por feliz de reconhecer as pessoas, lembrar coisas, me manter lúcido. Meu intelectual estava intacto... Esse era meu alento, diante do desespero de não conseguir mexer sequer um dedo que fosse do pé ou da mão esquerdos...

Outro alento era a capacidade, mantida, de controlar as necessidades fisiológicas. Só quem já usou fralda sabe o quão desagradável é defecar nessas circunstâncias. Horrível!

Enfim, sabia que estava “fodido”, mas nem tanto...

E como sempre há de ter um médico babaca, incompetente ou filho da puta em toda a história que se preze. Eis que o da minha história apareceu logo que fui transferido para o hospital Ana Costa – nas unidades públicas, quando descobrem que temos convênio, sempre dão logo um jeito de logo nos despachar. E foi o que aconteceu!

Ao chegar ao Ana Costa, novos testes, avaliações, tomografias... É... sobreviver dá trabalho, gente. Neste ponto, entra o citado médico, sutil como um paquiderme numa loja de louça!

Dirige-se para a minha mãe – uma senhora que já passou dos setenta e que havia perdido a filha recentemente, de câncer – e disse o seguinte:

- É mesmo uma pena! Um rapaz tão novo, ter de passar o resto da vida numa cadeira de rodas.

Pois bem, minha mãe ficou desconsolada. Para mim isso foi apenas mais um incentivo. Desde então venho treinando o dedo do meio da mão esquerda para voltar lá e mostrá-lo para esse palhaço!

Tirando esse idiota de branco, o hospital até era bem bom. Fisioterapia desde a UTI. Graças a isso logo minha cara desentortou. Mas nada de mexer pé e mão. Fui dar meus primeiros passos já em casa, cerca de 60 dias após o AVC.

Desses 20 e tantos dias de internação, minha lembrança mais marcante é a da angústia de estar ali, preso àquela “situação”, enquanto tinha um encontro para lá de especial marcado para o dia 23 de fevereiro. Meu AVC foi em 18 de fevereiro. Nesse dia iria conhecer minha filha,a Renatinha, que vivia num abrigo na cidade de Registro, no Vale do Ribeira paulista.

O encontro teve de ser adiado. E ainda tivemos problemas para conseguir uma ambulância UTI da Medial para retornar a São Paulo, condição da alta.

Fomos lá conhecê-la no final de semana do Dia das Mães. Retornamos com a Renata e a sua Guarda Provisória por três meses. Tinha quatro anos a minha pequena. No começo, lógico, faltava-me condições físicas para brincar com minha filhinha. Hoje, ela tem oito anos e eu, bem melhor, venho recuperando o tempo perdido.

Desde então, Renata é minha maior força, o grande incentivo para a minha recuperação – aliás, a recuperação será tema de um próximo post , não percam. rs.

Voltar para casa é estranho. Toda aquela parafernália de cadeiras de rodas, de banho, papagaio, rotina interminável de médicos, exames e terapias... Voltar a digitar agilmente, mesmo que com uma só mão!

Minhas palavras de ordem passaram a ser: APLICAÇÃO, DETERMINAÇÃO, ESPERANÇA e FÉ

Hoje me considero feliz e realizado, em que pesem as dificuldades impostas pelo desemprego e conseqüente falta de dinheiro – perdi carro, casa, emprego e esposa no pós-AVC. Mas isso é assunto para mais três ou quatro posts...

Por que feliz? Sou pai de uma menininha linda e, por tudo que passei, ainda devo agradecer por esta provação. Graças ao AVC e às diversas tomografias que fiz, os médicos descobriram que eu tinha um aneurisma cerebral na artéria comunicante – uma das principais do cérebro, que liga os hemisférios direito e esquerdo.

Ou seja: ter sofrido um AVC pode ter salvado a minha vida. O risco potencial de aquilo estourar e causar uma hemorragia é muito maior que o da isquemia que eu sofri. Tratado o aneurisma, o que me resta e importa agora é curtir a minha filha e retomar uma vida normal. Por isso saio, pego ônibus, metrô, tudo sozinho. INDEPENDÊNCIA é outra palavra que pode ser acrescentada ao meu mantra, acima.

Espero que todos aqui consigam passar com RESIGNAÇÃO e CORAGEM pela fase de ACEITAÇÃO do problema. Primeiro e fundamental passo para uma recuperação satisfatória. BOA SORTE, amigas e amigos! Meu msn é o paulocoutinho@uol.com.br.

8 comentários:

Murilo disse...

O comentário desse médico foi muito infeliz mesmo. Porém, podemos pensar do seguinte modo: sua condição naquele momento poderia ser realmente essa. E você pode ter se recuperado por um milagre! Sem desmerecer seu esforço que também foi fundamental. Mesmo quando somos vítimas desse tipo de atitude é importante não remoermos as mágoas, para que elas não cresçam e nos prejudiquem. Melhor esquecer incidentes como esse.

BETE disse...

PAULO....VC É UMA PESSOA FORTE,PARABENS,E DIGNO,PELO ATO DE ADOÇÃO,E QTO A EMPREGO,BENS MATERIAIS ISTO É O DE MENOS, O Q IMPORTA Q ÉS UM SOBREVIVENTE,Q LUTA E ACEITOU COM CORAGEM E RESIGNAÇÃO......E VC É UM VITORIOSO,E NADA MAIS NADA MESMO É POR ACASO....DEUS TE DEU UMA NOVA OPORTUNIDADE PARA DESFRUTAR A FELICIDADE DE SER PAI DE UM ANJO QUE TE FORTALECE,FICA COM DEUS....

Suely disse...

Parabéns, Paulo. Nada acontece por acaso. Agora você e todos que sofreram AVC são novas pessoas!
Suely

Anônimo disse...

Lendo sua história, percebo como as histórias de AVC tem muita similaridade, eu perdi também o carro, tive q mudar para uma casa num valor mais acessível e perdi 2 vezes o emprego.. e também perdi o traste do namorado que me deixou no hospital e sumiu, só quem passou por tudo isso sabe como arranjamos forças sabe-se lá de onde.. um grande abraço.. .Adriane

Anônimo disse...

tenho minha mae com avc nao estamos ainda aceitano nei nos nei ela so que as filhas cuidei dela so que nos temos que tra banhar

Anônimo disse...

a minha mae sofreu de dois aneurismas cerebrais, ha 13 atras.... um rebentou, o outro foi descoberto a tempo! ela sobreviveu, ao fim de um mes das cirurgias veio para casa e ao fim de 6 meses fazia a sua vida completamente normal!
a unica sequela foi a perda de olfacto!

Beth disse...

Paulo,

O texto esta perfeito, como sempre, voce escreve muito bem. Apenas mais uma vez queria esclarecer: não nos separamos por conta do avc.
Beijos de sua ex esposa que tentou por dois anos te ajudar a vencer esta luta.
Beth

Marisa disse...

Paulo sua história é muito emocionante.Deus te concedeu uma nova oportunidade, e ainda mais estar com sua filha, com certeza está é a maior benção... Marisa

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