Minha história de AVC:
Meu nome é Adriane, sou viúva, tenho 43 anos, e tive AVC hemorrágico aos 42 anos no dia 29.07.2008. Moro em Juiz de Fora – MG, mas nasci em Erechim - RS
Os sintomas pré AVC já faziam parte da minha vida: dor de cabeça e na nuca, tonturas, visão distorcida, dormência no lado esquerdo do corpo e câimbras mas como os desconhecia só descobri tudo depois, fui em oftamologista e cardiologista, mas dentro dessas especialidades os exames pareciam normais.
Um ano antes do AVC minha vida estava no auge do estresse e cansaço: trabalhava das 08.00 às 18:30, saía do serviço e ia para a faculdade onde fazia o curso de Ciências Contábeis> Minhas aulas começavam 19:00 horas e terminavam 22:30, chegava em casa e ia dormir por volta da 1 hora da madrugada, pois gostava de chegar em casa e conversar e lanchar com meu filho. Obviamente ainda dava uma arrumada na casa.
Finais de semana ia a festas e shows, e nos domingos estudava. Nessa correria toda e como estava viúva há 4 anos, comecei a sentir falta de ter um companheiro, um namorado. Comecei a sair com um amigo da minha irmã e meu cunhado e bem no dia que resolvemos começar a namorar aconteceu o AVC.
Eu havia sentido dores de cabeça forte durante o dia no serviço, tomei Dipirona e ao chegar em casa tomei um banho e como estava de férias da faculdade eu e meu futuro namorado resolvemos sair para comer uma pizza e dar início ao namoro. A última coisa que lembro é eu levantando do sofá para ir buscar a bolsa para sairmos, sentir uma fortíssima dor de cabeça e tontura, caí para trás desmaiada e depois acordar 10 dias após num hospital.
O rapaz que estava comigo ligou para minha irmã perguntando se eu era epilética, minha irmã disse que não e ele disse então vem para a casa dela que está acontecendo alguma coisa com ela e eu não sei o que é, minha irmã mora a 2 quadras do meu apartamento, veio correndo e quando entrou em minha casa me viu deitada no sofá desmaiada
Ela disse para o Paulo (rapaz que estava comigo), chama o SAMU. Para minha sorte em 20 minutos a ambulância chegou e fui atendida rápido pelos paramédicos. Ao chegar no hospital tive parada cardiorrespiratória e os médicos não conseguiam descobrir o que estava acontecendo comigo, chegaram a cogitar se eu havia tentado o suicídio ou tomado alguma mistura de remédio para emagrecer.
Nessa fase os médicos disseram a meus familiares: ela tem 5% de sobreviver, não estamos conseguindo reanimá-la, de repente eu voltei e os aparelhos avisavam que eu estava respirando e com os sintomas vitais voltando, fizeram a tomografia onde foi detectado o AVC hemorrágico.
Fiquei 10 dias na UTI em coma, acordei no 11º dia no quarto de hospital, com minha irmã me olhando e perguntando: “ Você lembra do que aconteceu?”, eu respondi que não, tentei levantar e ela me segurou dizendo “calma que você tem que ir devagar”, ela chamou a enfermeira para chamar o médico para avisar que eu havia acordado. Quando o médico neurologista começou a conversar comigo e explicar o que aconteceu fiquei surpresa, pois a memória eu havia perdido parcialmente, havia ficado alguns buracos na minha vida e ele disse que aos poucos eu voltaria ao normal, até a andar normal.
Fiquei 1 mês andando somente de cadeiras de rodas no hospital, depois aos poucos fui me reabilitando com a fisioterapia também, nesse período no hospital eu não conseguia tomar banho sozinha e nem me vestir, pentear, faltava coordenação motora e por vezes caí da cama quando tentava levantar para ir ao banheiro, sempre fui extremamente independente, tudo isso para mim era uma tortura.
Fiz exames de cateterisma e angioplastia até finalmente os médicos darem o veredicto que poderia ser realizada a cirurgia pela virilha, pois até o último momento talvez teria que ser com abertura no crânio (e eu teria que raspar a cabeça, isso me deixou quase no desespero, um dos neurologistas calmamente me disse: corte seu cabelo mais curto, pois daí você não sentirá tanto a perda do cabelo, cortei, mas felizmente a cirurgia foi pela virilha.
A expectativa era enorme e os dias que antecederam a cirurgia foram longos. No dia 01.10.2008 finalmente fui submetida a implantação de stent e molas no local do rompimento da artéria, na hora de ir para a sala de cirurgia estava consciente e só rezava para tudo dar certo, pois havia o risco de haver mais um rompimento, durante a cirurgia acompanhei a preparação, a chegada do anestesista e do cardiologista, minha pressão estava alta, só ouvi a voz do neurologista: vai ter que sedar mais a Adriane, ela está acompanhando tudo e a pressão está subindo, na hora ouvi ele dizer 17 X 15, ele olhou nos meus olhos e falou vamos sedar mais, tudo bem? Falei sim, pois percebi que meu emocional estava completamente abalado e se continuasse daquele jeito fatalmente eu não ia resistir.
Meus familiares que estavam na sala de espera próxima a sala de cirurgia disseram que os médicos vibraram quando o stent se alojou devidamente no local da ruptura. Acordei quando estava saindo da sala de cirurgia e a primeira pessoa que eu vi foi minha irmã Aldaira ela sorrindo dizendo “ocorreu tudo bem graças a Deus”, depois vieram os procedimentos para estancar a hemorragia na virilha, onde é feita a punção para entrada dos aparelhos, lembro até hoje da dor que aquele ferro dá para estancamento, não lembro do nome desse aparelho. Ao acordar na UTI para a recuperação lembro dos testes pois eu havia perdido um campo da visão nos lados e um estagiário de Medicina da UJFJ aplicava testes e exercícios até eu sentir a recuperação da visão total.
Fiquei mais 3 dias internada e finalmente obtive alta. Fiquei uns dias na casa da minha irmã e depois voltei a minha casa, subindo 4 andares de escada, sentindo que não era mais a mesma pessoa. Antes fazia o serviço de casa sozinha, a partir daquele momento tive que contratar uma pessoa para me ajudar.
Fazia fisioterapia e a partir do momento que estava em casa já comecei a perceber os amigos se afastando o ex futuro namorado também se afastou. A memória aos poucos voltava e eu revivia e sofria tudo de novo: a morte do meu marido, da minha mãe, o roubo do meu carro. Pequenos e grandes acontecimentos que ocorreram em minha vida revivi e revivo até hoje.
No dia 30.01.2009 fiz exame de cateterisma onde foi detectado que o aneurisma continua inchado, mas a ruptura controlada pelo stent, eu perguntei ao médico: “então eu tenho uma bomba relógio na cabeça?”. Ele riu e disse mais ou menos isso, mas viva de forma tranqüila, não deixe de tomar os remédios pois cirurgia gora é complicado, você corre o risco de perder o controle motor do lado esquerdo do seu corpo.
Fiquei afastada pelo INSS até o dia 28.02.09, ao retornar ao meu serviço no dia 02.03.2009, animada por estar voltando a ativa, fui informada pelo meu chefe que eu estava demitida pois ele preferia deixar o sobrinho dele no meu lugar. Foi um baque e tanto na minha vida. Mas já estou trabalhando em outro lugar e vivendo como uma sobrevivente de um AVC, o pior de tudo é o lado emocional, pois graças a Deus o lado motor e sensitivo está bom.
A última conquista foi conseguir andar de salto alto, pois não estava conseguindo, não tinha equilíbrio ainda e são poucas coisas que tenho dificuldade: descer de escada rolante e escada comum, agachar, mas são coisas que o tempo corrigirá. Pois já corrigiu coisas piores.. Um abraço a todos.
Por último meu agradecimento por toda minha vida aos neurologistas: Ronei Vicente, Marco Antonio Cúrzio e Carlos Eduardo Silva e a equipe do hospital João Felício em Juiz de Fora, que agüentaram meus chiliques, mas que principalmente me ajudaram na minha recuperação.
Adriane