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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

cinco anos depois...

Muita gente tem medo de perguntar como está Paulo Paiva após 5 anos de AVCH. O aniversário é no dia 18 de fevereiro. Aconteceu no domingo de Carnaval de 2007.

Depoimento sobre o caso dele é o primeiro deste blog, que criei juntamente com a Bete, que faz o relato do segundo post.

A sequência dos acontecimentos está nos links:

http://sobreviventesdoavc.blogspot.com/2009_04_01_archive.html

http://sobreviventesdoavc.blogspot.com/2009/05/escreva.html

http://sobreviventesdoavc.blogspot.com/2009/05/dia-8.html

http://sobreviventesdoavc.blogspot.com/2009/05/blog-post_21.html


Aos 54 anos, PP continua hemiplégico do lado esquerdo. Fica em pé, mas ainda não se firma muito.
Consegue dar apenas meio passo, com ajuda. Alguns passos de carangueijo, se apoiando na perna esquerda como se fosse muleta ou perna de pau. Ele tem controle das funçoes fisiológicas, mas eventualmente deixa escapar um xixi na cama.

Está bem lúcido. Já andou ensaiando muitos passos no trabalho. Teve vários desenhos publicados. Já elaborou histíoria en quadrinhos coerente, de 4 páginas. Ilustra piadas novas também.  Faz cálculos muito bem, escreve sem nenhum erro. Está em situado no tempo e espaço.

Dorme ainda em cama hospitalar pois achamos mais confortável, apesar da aparência um tanto desolador para quem não está acostumado.
PP conversa normalmente, tendo a voz ainda meio molhada pois não controla completamente a deglutiçao. Por este motivo, ainda continua com a sonda de gastristomia na barriga. O procedimento foi feito um ano depois. Adiamos o máximo, com esperança de que da sonda nasoenteral passasse a se alimentar completamente pela boca. Ainda não passa nos testes mas evoluiu bastante. Come de tudo e só não consegue controlar a água, que necessita tomar em grande quantia, especialmente no verão. A falta de hidratação pode causar convulsões. A última ocorreu há quase dois anos, isto é, após 3 anos de AVC.

Convulsões são ocorrências muito impressioantes. São semelhantes a "ataques" dos epiléticos. Acontece devido a problemas de transmissão dos neurõnios na área lesada pelo AVC. É uma espécie de curto-circuito que faz o corpo todo tremer, como se levasse um choque muito forte. Pode levar alguns segundos apenas ou muitos minutos. PP já sofreu um que chegou a demorar mais de 20 minutos. Deu tempo do resgate chegar  e chamar um médico para prosseguir com o atendimento. Foi conduzido entubado para o PS, onde foram feitos exames para conferir se não houve alguma causa mais importante, como um novo AVC. Felizmente foi só um susto. Mas, como na maior parte das vezes em que a convulsão causou também broncoaspiração, ele acabou tendo pneumonia.

O primeiro grande susto em casa ocorreu uns dois meses depois da alta. Minha filha e eu acordamos com gritos de : "Me tirem daqui!"  E nós: "De onde?" E ele: "Estou preso no chão!"

A família toda dormia na sala, em dois sofazinhos, enquanto ele ficava na cama hospitalar. Fizemos essa opçao pois é na sala que fica a tv ligada à antena coletiva e também porque o espaço é amplo, o suficiente para fazer fisioterapia e girar a cama 360 graus.
Minha filha acendeu a luz e demos com ele caído no chão. Em volta, uma poça de sangue. Vi que ele estava bem, apenas bateu a os dentes e sangrou a boca.

Impulsivamente, com um tremendo esforço, nós duas conseguimos erguê-lo e o recolocamos na cama. Quando o deitamos de barriga pra cima, veio a convulsão. Não sei o que ocorreu primeiro. Talvez o engasgo com o sangue que escorreu do machucado tenha causado a convulsão. Ou talvez a convulsão o tenha feito se engasgar. Por um momento, pareceu que ele perdeu o fôlego, os lábios ficaram roxos. Minha filha soprou na boca, fez respiraçao boca a boca. Em seguida, ele cuspiu o sangue e retomou a respiraçao. Enquanto isso, liguei pro resgate. Em poucos minutos, os bombeiros estavam aqui. Um deles era o mesmo que o socorreu no dia do AVC. Tendo tomado diazepam na veia, ele ficou grogue por uns dias. Nos deu a impressão de que recuamos uns 3 dos 5 passos que avançamos após a alta. Mas foi só por uns dias, logo vimos que os passos foram pra diante.

Dezembro, dia da formatura da minha filha. Dia intenso, com atividade ao ar livre. Atraso na programaçao. Muito calor, sol. Enquanto ela foi arrumar o cabelo para o baile, outra convulsão. Muito forte, na minha frente, enquanto tomava um iogurte. Foi uma cena tão impressionante que pensei em ver o texto: "Após o avc, ele resistiu até o dia da formatura da filha. Depois, descansou de vez." Quando cessaram os tremores e ele desmaiou, pensei que fosse morrer. Só quando veio a calmaria consegui ligar para o resgate, ao constatar que retomava o ritmo normal de respiração. Foi na mesma hora que liguei pra filha, que havia saído de carro. Tive receio de deixá-la nervosa, causando algum acidente. O susto foi grande, mas constatando que estava fora de perigo, ela ainda conseguiu ir ao baile.

Depois desse dia, ainda tivemos mais uns 3 ou 4 sustos. Seguidos de chamado de resgate, desespero para sermos atendidos e internação, seguida de constatação de pneumonia. Foi terrível vê-lo entubado e consciente. Agitado, precisando ser amarrado. Cortou-me o coração ver lágrimas escorrerem, impedido de falar que estava. Logo após a cirurgia para gastrostomia, também acabou convulsionando. Acredito que tenha sido devido à demora para liberar o uso da gastro, com consequente desidratação.

Tivemos também pico de pressão, chegando a 25x13. Novo pedido de socorro aos bombeiros e mais uns dias no hospital. Não descobrimos a causa. Hoje, imagino que tenha sido devido ao desconhecimento da presença de sódio em produtos diet. Ao ver que a pressão estava meio alta pela manhã, me preocupei apenas em cortar a comida salgada e o enchi de iogurte diet. Como demorava a fazer xixi, apesar do diurético, tive também a imprudência de dar coca diet. Tudo cheio de sódio, que causou maior elevação na pressão arterial. O estômago cheio o fez vomitar em jorros, de modo assustador, saindo até pelo nariz. Engasgou e broncoaspirou. Nova pneumonia.

Já estamos há dois anos sem internaçao. Reduzimos os remédios para um comprimido anticonvulsivo e remédio para pressão de apenas 25mg, quando necessário.  Ao longo desse tempo, nunca deixamos de monitorar. Medimos pelo menos 3x por dia. Temos um aparelho digital de pulso e também outro semiautomático de braço, que utilizamos em caso de dúvidas.

Eu e minha filha vivemos momentos de intenso estresse, devido a cobranças mútuas e atribuições de culpas. A cada crise, me senti num abismo profundo. Ainda carrego a sensação de que poderia ter evitado isso tudo se tivesse adivinhado o que estava acontecendo quando ele acordou com dor de cabeça naquele domingo de Carnaval. Ainda fico espantada e estática quando ouço alguém dizer: "Não sei como você aguenta!" Nada respondo, mas penso comigo: "Aguento porque não existe outra opção. Aguento porque não existe alegria maior do que ver uma pessoa viva e feliz graças ao nosso esforço".

Um recado:
Façam tudo, absolutamente tudo que estiver ao alcance para seguir adiante com seu sobrevivente. Ofereça carinho, cuidado pessoal, atenção. Se possível, lhe dê muito amor. Ou melhor: só assim, terá a oportunidade de descobrir o que é amor, em sua essência. Só quem percorre este caminho fará ideia de como tudo pode ser tão gratificante. É uma oportunidade única de revermos todos os valores. A importância de um dia de bem-estar de outro ser humano que depende de você.

Repito uma frase da Elaine dos Santos: "Não há como descrever o pôr do Sol para um cego."
Nunca teremos palavras suficientes. Nem o melhor escritor ou poeta conseguirá essa proeza.


Suely

3 comentários:

Karol Varela disse...

Sueli aguentamos porque amamos...força e fé!!!

Andreia - andreianteixeira@hotmail.com disse...

Só o amor e a fé em DEUS é capaz de nos dá a força para suportarmos os sustos, medos, frustraçoes, suspenses, e grandes emoçoes! Eu tive um grande susto agora, meu marido tb é sobrevivente do avc, que ocorreu ha 3 meses e meio e hj teve uma primeira convulsão... foi horrivel , e lendo o seu depoimento me vi ali em uma das vezes que vccê descreve.Falei com ele a necessidade da água e e ele de pronto, pediu logo um copo de água.Boa sorte e obrigada!

Leonardo Macedo disse...

É muito triste, mas precisamos ter muito amor e força de vontade.

Estou passando por isto também, minha mãe teve o terceiro AVC, estou profundamente triste e me sentindo culpado.

Ver a pessoa que amamos, numa cama, é definitivamente a pior coisa na vida.

Força.

Leonardo Macedo

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